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Memórias

Há quem parta. E há quem fique espalhado pela vida, como um perfume antigo no ar.
Benedicta ficou. Ficou nas palavras que ensinou, nos ditados que repetia, na força das mulheres que vieram depois, na fé que ainda protege quem a amou.
Ficou também na saudade mansa, no orgulho sereno, no amor que não pesa, apenas acompanha.
E quando o silêncio parece doer demais, basta lembrar o que ela dizia, com aquele meio sorriso de quem já sabia de tudo:
“Quem tem fé, nunca está só.”
E ela não está.
Nem nós.
Benedicta viveu 102 anos, mas sua história não cabe em números.
Ela viu o mundo sair dos lampiões para os satélites, das cartas manuscritas para os “smartphones”. E, mesmo assim, manteve o mesmo encanto.
Não foi apenas espectadora dessas mudanças: atravessou todas com curiosidade, entusiasmo e presença. Evoluiu junto com o tempo, sem perder a essência.
Porque há pessoas que não apenas testemunham o tempo - elas o educam, o adoçam, o atravessam de mãos dadas.
Em seus últimos anos, dizia que quando morresse, seu espírito se fundiria às matas, aos rios, às borboletas. E talvez seja isso que a família sinta hoje: o vento leve que entra pela janela, a borboleta que pousa na varanda sem pressa - todos são ela.


Era vaidosa, mas não por vaidade - por respeito à vida.
Cuidava da pele, do corpo e da sabedoria. Dizia que os cremes deviam ser passados pra cima, porque o tempo já empurra tudo pra baixo. E talvez fosse isso o que fazia dela eterna: se erguia todos os dias contra o peso do tempo.
Os netos a chamavam de vozinha - e “vozinha” virou nome próprio, sinônimo de colo, de cheiro, de casa.
Era vozinha no lanche caprichado esperando a neta, no conselho atento, na escuta paciente, na omelete inesquecível, no cuidado silencioso.
Cuidou de tudo. Voltou. Conheceu a depressão. Foi acolhida. Reergueu-se. E, quando se sentiu pronta, escolheu voltar a morar sozinha, porque autonomia também era amor-próprio.
Mas mesmo na tristeza, havia nela um tipo de beleza serena, que só quem conhece o amor verdadeiro carrega.
Curou-se do silêncio com viagens, descobertas, amizades e o velho hábito de arrumar a vida como arrumava a bolsa todos os dias ao chegar da rua: descartando excessos, alinhando o essencial - um gesto pequeno que era, no fundo, filosofia de vida.
Viajou muito. Sozinha, acompanhada, em excursões, pelo Brasil e pelo mundo. Foi à Terra Santa. Subiu o Monte das Oliveiras aos 86 anos. Conheceu lugares como quem coleciona horizontes.


Tinha fé, mas também curiosidade - lia sobre anjos e sobre energia, estudava tarô e psicologia, rezava e refletia. Era como se dissesse: “Deus está em tudo, até na dúvida.”
Rezava como quem medita. Rezava andando, trabalhando, agradecendo. E, ao mesmo tempo, estudava parapsicologia, numerologia, runas, horóscopo, vida após a morte, radiestesia. Guardava cadernos cheios de anotações, baralhos de tarô, perguntas sem medo. Uma fé profunda, mas nunca estreita.
E a vida a fez rir alto, mas também chorar fundo.
Perdeu o amor de sua vida em Lisboa e, sozinha, enfrentou o retorno e o luto.
Benedicta foi uma mulher à frente do seu tempo, mas sempre de pés no chão. Ensinava às filhas que o estudo e o trabalho eram a verdadeira liberdade, e aos filhos, que o amor mora no detalhe.
Era protagonista da própria vida. Tomava decisões, mudava rotas, enfrentava concursos públicos, recusava excessos de trabalho quando era preciso, reconhecia seus limites e agia. Sempre acreditou em si, até nos momentos mais difíceis. Seu “hobby” era fazer concursos e, por conta deles, trabalhou como auxiliar de escritório na Polícia Civil, um mês antes de se casar e, já casada e um filho, como escriturária do Ministério da Indústria e Comércio e, já com dois filhos, foi selecionada para oficial administrativo do Ministério da Justiça e Negócios Interiores onde permaneceu por mais de vinte anos.


Benedicta de Queiroz Innocenzi
Rio de Janeiro, Brasil
nascida em 1914
Algumas vidas não se vão. Elas se espalham.
Ficam na poeira dourada dos retratos, na doçura das vozes que ainda pronunciam o mesmo nome com ternura: vozinha.
Benedicta era dessas presenças que continuam mesmo quando já estão longe. Nasceu quando o mundo ainda era feito de silêncios e lampiões, mas parecia já trazer dentro de si uma luz antiga, dessas que se perpetuam como no espaço.
Seu nome já trazia um destino – abençoada. Talvez por isso tenha atravessado mais de um século com o mesmo brilho das manhãs que ela tanto amava.

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Carregava no próprio nascimento uma história feita de travessias, perdas e recomeços. Era filha de Rosa do Carmo, mulher que atravessou o oceano trazendo no peito a dor de ter ficado viúva e de ter perdido uma filha num acidente trágico, e de Joaquim Teixeira de Queiroz, homem que também deixou Portugal após não receber permissão da família para viver o amor que escolheu.
Nascida de duas histórias reescritas pelo amor, foi a única filha desse encontro tardio e necessário. Recebeu o nome da irmã que não pôde viver, como se a vida tivesse decidido continuar nela aquilo que havia sido interrompido antes. Benedicta nasceu já como continuidade, como promessa, como segunda chance.



Benedicta era dessas crianças que até a travessura carregava leveza.
Gostava de cantar tanto, que o recreio só terminava quando ela acabava a música.
Gostava do carnaval e da missa, das farras e dos terços, de se fantasiar e de agradecer.
Desde cedo soube que alegria também é uma forma de fé.
Ensaiava no bloco “Estou com Calor”, do Mauá Futebol Clube, saía de “sujo” pela manhã e à tarde vestia fantasia para seguir os blocos, mas nunca deixava de ir à missa bem cedo aos domingos. Para ela, fé e festa não se anulavam: se completavam.
Cresceu no bairro da Saúde, quando o Rio ainda era feito de fogueiras e rodas de conversa. No Larguinho de São Francisco da Prainha, sua infância foi barulho de risadas, vestidos pairando nas rodas de brincar, o cheiro doce das batatas assando nas noites de São João.
Dizia que aquele era o seu “play”, e talvez tenha sido ali que aprendeu a dançar com o tempo, com a mesma travessura que sustenta as crianças e salva os poetas.
Ali brincou de roda, pulou corda, queimou os dedos no chicote queimado, bateu peteca, escorregou pelo “acimentado” inclinado da Rua Jogo da Bola, rasgando calças e arrancando sorrisos da mãe, que perguntava por onde andara, mas nunca brigava.

Depois, virou adulta e ousou. Num tempo em que quase nenhuma mulher atravessava o limite do curso normal, ela se formou professora e depois contadora. A primeira naquele curso, a primeira a entender que estudar também era uma forma de se libertar.
Formou-se professora primária, lecionou em escola pública em Vaz Lobo e, em 1934, tornou-se Perito Contadora pela Escola de Comércio Amaro Cavalcante, um feito raro, quase impensável para uma mulher daquela época.
Dominava a datilografia e a taquigrafia com excelência, habilidades que atravessaram gerações e chegaram até os netos, como pequenos legados invisíveis.



E o caminho lhe trouxe Renato. Um encontro ao acaso, um olhar e o mundo inteiro coube em um passo de dança. “A Jardineira” tocou quando começaram o namoro, e a vida deles floresceu ao som dessa canção.
Conheceram-se no Mesbla. Ela, elegante, de chapéu, currículo em mãos; ele, chefe da seção. Amor à primeira vista, reconhecido no silêncio do olhar. O primeiro convite, o cuidado em não atravessar limites, o encontro no salão, a dança aceita. E ali, sem pressa, tudo começou.
Casaram-se na Igreja Santa Rita de Cássia, sob o canto de um tenor, seu futuro sogro, e a bênção de um amor manso e inteiro.
Esse dia ficou guardado como uma joia: o órgão, o violino, a Ave Maria ecoando no templo, o amor firmado com solenidade e ternura.
Juntos criaram quatro filhos - Renato, Rosaldo, Rosane e Rosíris - e um lar onde oração e gargalhada conviviam no mesmo tom.


Com meu pai, Rosaldo, pude testemunhar de perto uma relação especialmente marcante e inspiradora nos últimos anos de vida dela: um vínculo de cuidado e entrega, vivido com presença constante, amor e dedicação até o fim.
Eu também adorava estar com ela. Sempre que a visitava, repassava as novidades da minha vida em detalhes. E ela sempre me ouvia com muito interesse e bons conselhos, sobretudo em questões relacionadas a estudo e, mais tarde, à minha vida profissional.
Ela dizia que eu parecia uma “gatinha” falando, por conta da minha voz e entonação da fala. Uma vez viajamos só nós duas: fomos no Trem de Prata, partindo da Estação Leopoldina, no Centro do Rio, até SP, onde visitamos a Cidade das Crianças e o Simba Safari. Eu tinha 10 anos, aproximadamente. Foi uma viagem inesquecível, da qual guardo detalhes até hoje na memória.
Já na faculdade, eu gostava de ir dormir com ela de vez em quando. Era sempre muito bom. Ela me esperava com um lanche caprichado e cheio de itens diferentes e novidades que ela garimpava e descobria antes de todo mundo.
Sou plena de orgulho e saudade da minha vozinha.
Juliane Innocenzi
Os filhos fomos, todos, formados e moldados à sua luz e semelhança. Valorizo, muito e perenemente, os inúmeros aspectos positivos de minha formação e agradeço a Deus a oportunidade de ter podido concretizar essa minha gratidão em forma de dedicação absoluta ao seu bem-estar e a uma melhor qualidade de vida nos seus últimos quinze anos entre nós. Fico igualmente feliz, sereno e pacificado interiormente por ter conseguido neutralizar e superar as influências que iam de encontro às minhas idiossincrasias, abrindo, assim, caminho para entendê-las, perdoá-las e, desse modo, transformar sua ausência numa saudade mansa.
Rosaldo Innocenzi
Mamãe ria muito de mim. Me achava engraçada. Adorava passear e viajar comigo. Muitas vezes, foi me encontrar no trabalho, em uma sexta-feira, para curtir comigo o final de semana. Viajamos juntas várias vezes. Ela dizia que eu era a ‘filha do lazer’. Todos os meses, ela recebia um folder com a programação das viagens do mês. Eu sempre separava as que poderia fazer com ela. Ela adorava e sempre dizia que gostava de viajar comigo, pois, na excursão, as “velhinhas” andavam devagar e estavam sempre cansadas.
Gostava muito de comer coisas diferentes e eu sempre a incentivava pelo mundo da gastronomia. Uma vez a levei para comer comida japonesa, mas ela não gostou. Naquela noite, sonhou que estava pescando com meu pai.
Gostei muito desses momentos ‘recreio’ que vivi com a mãezinha.
Rosiris Innocenzi
Me lembro com muito carinho e admiração da minha Vozinha. Lembro do cheirinho dela e da casa dela. Lembro do ‘bode com botas’, a melhor omelete que eu comi na vida.
Lembro dos dias que passei com ela em Guarapari, só nós duas. Eu ficava até tarde assistindo ‘Anos Rebeldes’ na televisão ela ficava preocupada de eu ficar acordada até tão tarde.
Cristiane Innocenzi
Ao escrever este depoimento a saudade aperta, mas, acima de tudo, o que transborda em mim é a gratidão. Um privilégio de ser sua filha e de ter tido a oportunidade de resgatar diferenças, o que nos aproximou ainda mais, quando pude tratar em mim o que me incomodava na senhora.
Minha mãe sempre esteve à frente do seu tempo. Falava da importância do estudo principalmente para a mulher. Incentivou-me a aprender línguas estrangeiras, a fazer intercâmbio, a voar...
Herdei dela o desejo de conhecer lugares, culturas e países diferentes sozinha ou acompanhada, pois também com ela aprendi a gostar de estar com o outro, mas não a depender do outro.
Com ela também aprendi sobre a importância da espiritualidade. Minha mãe era muito mais do que uma católica praticante. Tinha uma espiritualidade que ia muito além das paredes da igreja.
Aprendi a honrar os ancestrais e a escutar e respeitar a intuição.
Todo esse legado é a base da mulher que sou, da profissão que escolhi e do contínuo interesse de buscar muito além do racional.
Te amo, te honro.
Minha eterna gratidão por tudo e por tanto.
Rosane Innocenzi
























Minha titia querida, a senhora foi uma inspiração na minha vida!
Sempre tive e tenho grande admiração pela maneira carismática e inteligente com a qual conduziu a sua vida.
Saudades das férias na Ilha do Governador quando eu ainda era uma criança.
Foram dias inesquecíveis, com muita felicidade e alegria, que a senhora me proporcionou sempre com muito amor e carinho!
Só tenho que agradecer pelos conselhos, incentivos, ensinamentos e elogios que muito me ajudaram a ser a pessoa que sou hoje.
Titia, sua presença forte, atenta e carinhosa faz com que eu tenha, além de muito amor, a certeza do quanto a senhora foi uma pessoa muito importante na minha vida!
Muito obrigada por tudo!